O velho Bukowski

2013-07-16_11-25-39_129

Misto Quente foi o primeiro livro que li do Charles Bukowski, até então só havia lido alguns contos aleatórios pela internet…Ok, é até uma vergonha admitir isso, não havia me interessado o suficiente ainda pelo velho…

O livro conta a história de Henry Chinaski, filho de pais alemães. Uma mãe passiva e um pai autoritário que insiste em repetir ao filho, ainda criança, no início do livro, “As crianças foram feitas para serem olhadas e não ouvidas”. No início fica claro a inocência de Henry ao fazer muitas perguntas e o seu afeto por algumas pessoas, como por exemplo, o seu avô Leonard, que “Bebeu e jogou fora tudo o que tinha durante a vida” segundo o pai. Fica evidente também que a raiva e o modo grosseiro do pai ainda não o moldara numa criança frustada, dando esperança ao leitor que o protagonista vença o pai no futuro (impressão que eu tive no início do livro).

A história começa com a família celebrando o natal de 1922 na casa da avó Emily, possivelmente na Alemanhã. Possivelmente porque são as lembranças de Henry quando ainda muito pequeno, ele lembra que “Essas pessoas não pareciam felizes em estar juntos”.

Pouco depois eles se mudam para os Estados Unidos, e passam a viver em Los Angeles. Com o desenrolar do livro, Henry vai para o ensino fundamental e começa a mostrar ao leitor sua indiferença pelas outras crianças, talvez por ser o excluído e estar sempre sozinho, sua raiva pela ordem “natural” das coisas e ao mesmo tempo um desejo inconsciente em fazer parte da turma das crianças populares, percebemos isso quando ele joga Beisebol com os garotos e consegue fazer um home run, um passe importante no Beisebol, que quase o leva ao time titular da escola, não fosse o técnico dizer não, ao que o próprio Chinaski pensa “E ele estava certo. Nunca mais acertei um home run. Furava a maior parte do tempo. Mas sempre lhes vinha às mentes o home run daquele dia, e, embora ainda me odiassem, era uma forma melhor de ódio, um ódio que já não tinha porquê.”

Henry tinha um ódio sobre humano pelo pai e esse ódio ganha ainda mais vida quando Henry leva para casa uma carta do diretor da escola, por ele ter batido em um colega, seu pai decide lhe aplicar uma surra e o manda direto para o banheiro e a partir desse dia, essa prática passa a ser mais frequente, por qualquer mínimo motivo.

“Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. As paredes eram brancas. Havia um espelho e uma pequena janela cuja tela estava enegrecida e quebrada. Havia a banheira, a privada e os azulejos. Ele pego o amolador da navalha que estava pendurado em um gancho. Seria a primeira de uma série de surras que viriam a correr com mais e mais frequência. Sempre, eu sentia, sem qualquer razão evidente para esses espancamentos.”

Outra passagem que eu acho digna de destaque é quando os garotos, já mais pra frente no livro, encurralam um pobre gatinho para que o Buldogue de Chuck o pegasse:

“O buldogue se aproximou. Eu não podia ver aquele crime. Senti uma vergonha por abandonar o gato a própria sorte. Havia sempre a chance de que o bichano pudesse escapar, mas eu sabia que os garotos não deixariam isso acontecer. Aquele gato não enfrentava apenas o buldogue, ele enfrentava a Humanidade inteira.

Outra é quando eles estão na aula de Educação física (já após a crise de 1929) onde o professor os manda ficarem eretos, com os ombros erguidos.

“Ninguém mudava de postura. Éramos como éramos e não queríamos ser nada além disso. Todos vinhamos de famílias vítimas da Depressão e a maioria entre nós era mal alimentada, embora tivéssemos crescido a ponto de nos tornar grandes e fortes. Em grande parte, creio eu, recebíamos pouco amor de nossas famílias, e não pedíamos amor ou gentileza a quem quer que fosse. Éramos uma piada, mas as pessoas tomavam cuidado para não rir na nossa cara. Era como se tivéssemos crescido rápido demais e estivéssemos de saco cheio de ser crianças.”

Com a crise de 29, muitas famílias perderam tudo, houve uma onda de desemprego terrível, muitos dos pais da vizinhança de Henry estavam desempregados, inclusive seu pai, porém o medo de que os outros soubessem disso, soubessem que ele, o pai, havia fracassado, fizera com que ele continuasse a pegar o carro todas as manhãs e a sair como se estivesse a ir para o trabalho. O medo constante de passar uma imagem de fracasso para os vizinhos ou de pobreza, pois ainda que pobres, julgava-se o pai superior e viviam numa ilusão de serem mais afortunados que as outras famílias. Inclusive isso fica evidente na infância de Henry, quando o pai não o deixa brincar com as crianças da vizinhança, e se concretiza no ensino médio, quando o manda para uma escola onde a maioria das alunos eram melhores de vida economicamente falando.

A questão da sexualidade também passa a ter mais importância no ensino médio, embora Henry se considere um cara durão, que não precisava fazer parte do time de futebol ou andar com o pessoal mais popular, ainda continuava virgem… É no ensino médio também, que ele passa a enfrentar problemas com suas espinhas por todo o corpo, sendo afastado da escola, Henry passa a ir a consultas médicas e passa praticamente as tardes em casa, muitas vezes escrevendo, desenhando, lendo ou fazendo nada. Sua vida, que já era miserável, passa a ser pior por julgar-se muito feio e sem uma perspectiva de mudar sua condição no futuro, como se o que lhe aguardasse fosse o mesmo futuro que tivera o pai, um emprego ordinário, casar, formar família, ter uma casa mais ou menos, um quintal, uma vida sem grandes acontecimentos, coisa da qual ele tinha profunda aversão a essa ordem da vida, esperava mais, porém sabia que não poderia acontecer mais do que o curso natural que lhe esperava: uma vida ordinária. A amargura de não ter tido uma vida, aparentemente fácil, como as dos garotos e garotas com seus cabelos dourados e seu jeito sempre feliz de levar a vida, é evidente no baile de formatura:

“Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando este dia chegasse, teria uma coisa que eles não têm.
De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas, e enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver.”

Depois que o ensino médio acabou, Henry começou a trabalhar numa loja e não durou muito tempo, acabou brigando com um dos clientes, que era um dos garotos dourados do ensino médio. Logo depois foi expulso de casa quando o pai achou seus manuscritos, tinha vontade de ser escritor, e embora estivesse na faculdade cursando jornalismo, foi passando de pensão em pensão com o dinheiro que lucrava de alguns jogos, passava bebendo e fumando a maior parte dos dias…

Eu gostei muito do livro, no começo achei um pouco irritante essa raiva que ele sentia por tudo ao seu redor, mas no desenrolar do livro senti empatia pelo personagem que cresceu num meio em que não podia-se esperar mais que um futuro ordinário como repetição, a raiva que sentia pelo pai e o desgosto por ter uma mãe que aceitava tudo, inclusive traição e violência física, o fizera se tornar uma pessoa desacreditada na humanidade, e mesmo que quisesse ser um daqueles garotos que não tem com o que se preocupar, como se a vida fosse fácil, sabia que não podia, que isso não estava incluído no seu roteiro, mas que um dia ainda se sentiria tão feliz quanto.

Algumas frases do livro:

“A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, misture com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você terá o necessário.”

“Que tempos foram aqueles, ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade.”

“Lembrei do que Ivan tinha dito em Os Irmãos Karamazov: “Quem não quer matar o próprio pai?”.”

A edição que eu tenho é a de bolso da L&PM Pocket, com tradução de Pedro Gonzaga ( maravilhoso escritor e professor de literatura).

Fica a dica de leitura, é um livro fácil de ler e de leitura rápida.

E você que já leu, o que achou? Deixe um comentário com a sua opinião!

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2 comentários sobre “O velho Bukowski

    1. Oi Bruna, eu também tardei a leitura porque não tinha me interessado suficientemente por ele, hahaha, mas lê, te garanto que é um livro muito bom!
      E o teu blog? O que é isso, tô apaixonada, logo de cara já encontro Tarantino, seguindo já!

      Obrigada pelo comentário, boa noite, beijinho!

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